Tiras de <em>jeans</em>
A Bielorrússia foi a votos no passado domingo e cometeu de imediato dois pecados capitais: primeiro, registou um nível de participação de 92,6 por cento; segundo, elegeu o actual presidente, Lukachenko, por 82,6 dos votos.
Isto bastava para que os EUA viessem, como vieram, declarar que «não aceitam» os resultados, embora os «argumentos» não se fiquem por aqui. Com efeito, para um país que se considera o expoente máximo da democracia e onde a participação eleitoral há muito fica aquém dos 50 por cento, para já não falar de certos imbróglios em que quem ganha perde e quem perde ganha, deve ser totalmente incompreensível tamanha mobilização para as urnas, o que só confirma a necessidade imperiosa de intervir quanto antes para trazer os bielorrussos para a modernidade. Não menos incompreensível deve ser o facto de se votar num homem que a secretária de Estado norte-americana classifica como «o último ditador da Europa», o que como se sabe é razão mais do que suficiente em qualquer país civilizado para, pelo menos, a excomunhão política, ou nos casos mais renitentes para exigir a intervenção de Carla del Ponte mais o seu «tribunal» internacional, onde os réus têm tendência a morrer como tordos.
Mas a coisa não se fica por aqui. Na verdade, Lukachenko mostrou não estar à altura das expectativas do Ocidente a partir do momento em que se revelou um homem que, ao fim de dois mandatos como presidente do seu país, não só não se rendeu às teses esplendorosas do neoliberalismo, mostrando-se avesso às privatizações, como - sacrilégio dos sacrilégios - insiste em não esmolar o pedido de adesão à União Europeia e à NATO. Mais grave ainda, se tal é possível, está envolvido num projecto com a Rússia para a criação de um Estado unificado.
Acresce ainda que a Bielorrússia, sob a mão de ferro deste «último ditador» - que por acaso não invadiu ninguém nem está em guerra com nenhum país - tem ainda o despudor de apresentar um dos aumentos mais elevados do PIB à escala mundial (9,2 por cento em 2005), segundo a ONU, e um dos mais baixos níveis de pobreza (dois por cento, de acordo com o Banco Europeu).
Com semelhante panorama, capaz de tirar o sono aos mais insensíveis governantes norte-americanos e europeus, não é de estranhar que, com particular persistência a partir de Setembro último, os média dominantes se tenham posto em acção. Adjuvados por diligentes ONGs, desenvolveram uma campanha concertada para denunciar as alegadas malvadezes o regime bielorrusso, muito ao estilo da utilizada quando o mote ara «armas de destruição maciça no Iraque» ou «limpeza étnica no Kosovo», enquanto a Europa dos 25 ameaçava com sanções se o candidato do Ocidente não ganhasse as eleições. Ao que consta, entre os defensores de medidas mais drásticas conta-se a Lituânia, onde sem dúvida os cerca de sete por cento da população a viver na pobreza se interrogam como podem os seus confrades bielorrussos sobreviver sem a benção de Washington.
Perdidas as eleições apesar de toda a pressão, passou-se à segunda fase. A oposição, cujo símbolo segundo consta são tiras de jeans, manifesta-se em Minsk, com o apoio e os dólares dos EUA, enquanto a UE anuncia sanções. Qualquer semelhança com a Geórgia (2003) e a Ucrânia (2004) ou com as tentativas falhadas no Cazaquistão, Azerbaijão e Uzbequistão, em 2005, diga-se desde já, não é pura coincidência.
Isto bastava para que os EUA viessem, como vieram, declarar que «não aceitam» os resultados, embora os «argumentos» não se fiquem por aqui. Com efeito, para um país que se considera o expoente máximo da democracia e onde a participação eleitoral há muito fica aquém dos 50 por cento, para já não falar de certos imbróglios em que quem ganha perde e quem perde ganha, deve ser totalmente incompreensível tamanha mobilização para as urnas, o que só confirma a necessidade imperiosa de intervir quanto antes para trazer os bielorrussos para a modernidade. Não menos incompreensível deve ser o facto de se votar num homem que a secretária de Estado norte-americana classifica como «o último ditador da Europa», o que como se sabe é razão mais do que suficiente em qualquer país civilizado para, pelo menos, a excomunhão política, ou nos casos mais renitentes para exigir a intervenção de Carla del Ponte mais o seu «tribunal» internacional, onde os réus têm tendência a morrer como tordos.
Mas a coisa não se fica por aqui. Na verdade, Lukachenko mostrou não estar à altura das expectativas do Ocidente a partir do momento em que se revelou um homem que, ao fim de dois mandatos como presidente do seu país, não só não se rendeu às teses esplendorosas do neoliberalismo, mostrando-se avesso às privatizações, como - sacrilégio dos sacrilégios - insiste em não esmolar o pedido de adesão à União Europeia e à NATO. Mais grave ainda, se tal é possível, está envolvido num projecto com a Rússia para a criação de um Estado unificado.
Acresce ainda que a Bielorrússia, sob a mão de ferro deste «último ditador» - que por acaso não invadiu ninguém nem está em guerra com nenhum país - tem ainda o despudor de apresentar um dos aumentos mais elevados do PIB à escala mundial (9,2 por cento em 2005), segundo a ONU, e um dos mais baixos níveis de pobreza (dois por cento, de acordo com o Banco Europeu).
Com semelhante panorama, capaz de tirar o sono aos mais insensíveis governantes norte-americanos e europeus, não é de estranhar que, com particular persistência a partir de Setembro último, os média dominantes se tenham posto em acção. Adjuvados por diligentes ONGs, desenvolveram uma campanha concertada para denunciar as alegadas malvadezes o regime bielorrusso, muito ao estilo da utilizada quando o mote ara «armas de destruição maciça no Iraque» ou «limpeza étnica no Kosovo», enquanto a Europa dos 25 ameaçava com sanções se o candidato do Ocidente não ganhasse as eleições. Ao que consta, entre os defensores de medidas mais drásticas conta-se a Lituânia, onde sem dúvida os cerca de sete por cento da população a viver na pobreza se interrogam como podem os seus confrades bielorrussos sobreviver sem a benção de Washington.
Perdidas as eleições apesar de toda a pressão, passou-se à segunda fase. A oposição, cujo símbolo segundo consta são tiras de jeans, manifesta-se em Minsk, com o apoio e os dólares dos EUA, enquanto a UE anuncia sanções. Qualquer semelhança com a Geórgia (2003) e a Ucrânia (2004) ou com as tentativas falhadas no Cazaquistão, Azerbaijão e Uzbequistão, em 2005, diga-se desde já, não é pura coincidência.